sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Fique!


Quando me sentei no confortável sofá de padrões azuis no consultório de minha terapeuta, aninhada no meio das almofadas suaves de pelúcia brancas, girava meu suporte de rabo de cavalo ao redor do meu pulso repetidamente, quando ela me perguntou:
"Para onde você se transportou agora?"
“Lugar algum. Eu simplesmente me distraí." Respondi, enquanto olhava para o sol, cujos raios dançavam pelo peitoril da janela.
Mas isso estava longe de ser verdade. Eu estava pensando sobre a vida e a morte, o significado da minha existência, meu nível de desesperança e como eu queria muito acabar com a dor e, finalmente, acabar de vez com a minha vida.
Eu tenho pensado muito nisso ultimamente. Então, hoje, quando minha terapeuta me deu a tarefa de escrever cartas para mim; cartas que eu possa ler durante os períodos difíceis ou sem esperança, pensei: que melhor carta para escrever do que um lembrete para ficar por aqui.
Aqui está - minha carta de lembrete para me manter viva e ficar por aqui:
“Para mim, quando eu precisar lembrar.
Eu sei que as coisas não têm sido fáceis ultimamente e a dor que geralmente sinto é demais para suportar. A morte parece ser uma opção muito mais aceitável do que esperar que as coisas melhorem ou se tornem mais fáceis. Você vive dizendo a si mesma que está cansada, que é uma doente crônica, uma fracassada e que não tem solução - mensagens que você realmente acredita definirem o núcleo do seu ser. Você realmente não consegue enxergar além da escuridão que circunda o seu dia a dia. A luz cobiçada no final do túnel? Não é mais do que uma miragem fugidia que você sempre está perseguindo sem nunca conseguir alcançar.
Você está cansada de lutar em uma batalha implacável com doenças mentais. Qualquer pessoa entenderia porque você está exausta. Faz sentido - assim como querer por um fim definitivo à dor também faz sentido. A depressão tem uma maneira de encolher seu mundo para uma única sala solitária. Ela faz o mundo se resumir aos pensamentos negativos, aos sentimentos desesperadores e ao desejo de morte que dominam dentro das quatro paredes do seu quarto, te impossibilitando de sair da cama.
O que você não percebe é que existe um mundo além dessas cortinas densas de pensamentos, sentimentos e desejos obsessivos e escuros. Um mundão lá fora grande e brilhante e que está à espera de ser descoberto. Embora pareça aterrorizante nesse momento pensar em abraçar o ruído, o caos e a luz - eu prometo que nem sempre se sentirá tão esmagada. Você só tem que segurar a onda e ficar o tempo suficiente para ver isso por si mesma as coisas na tua vida se transformando. Por isso:
Fique!
Fique quando sentir vontade de entrar no quarto. Fique quando tudo em você estiver gritando por alívio. Fique o suficiente para ver as faíscas inflamarem-se em chamas e a esperança arder em você mais uma vez. Fique mais um dia. Fique para ver uma outra pessoa sorrir. Talvez um dia seja você quem vai sorrir também. Fique para assistir a outro pôr-do-sol e respire fundo enquanto contempla os tons de algodão doce que cobrem a vastidão do céu. Fique por algum tempo, até ter a chance de ouvir sua voz falar mais alto. Você ainda tem muito a dizer e a fazer e pode ser uma força poderosa se você se permitir ficar. Fique para que possa experimentar mais uma xícara de café. Pelo menos saberá que alguma coisa te provoca sensações gostosas. Fique para que possa fazer mais uma viagem e tirar fotos que ficarão guardadas para sempre na forma de memórias. Fique mesmo sabendo que vai chorar mais uma vez. Lembre-se de que você é humana, e ser humano é uma coisa bagunçada e dolorosa, mas também, ocasionalmente, linda. Fique para que você possa segurar a mão de alguém. Fique para ver as mudanças acontecendo ao seu redor. Fique para sentir seu coração ficar pleno e você se sentir cheia de viva, mesmo tendo certeza de que esses sentimentos não durarão. Fique para ter essas experiências. Peço-lhe que fique, por favor. O mundo precisa, sim, de você, mesmo que não acredite no momento. Você é digna e amada e merece ocupar o seu espaço na vida.
Então, fique um pouco mais nesse mundo.
Conquiste o seu espaço.
Faça ouvirem sua voz.
Experimente a vida em toda sua bagunçada beleza.
Deixe sua marca neste mundo. Só ficando por aqui é que você pode causar um impacto nas outras pessoas, e não importa quão pequeno você possa sentir que esse impacto possa ser.
Você ficará bem. Acredite. Talvez não hoje ou mesmo amanhã, mas se você optar por ficar então será a primeira a testemunhar a incrível força, poder e bravura que você possui. Você, minha querida, é corajosa.
Fique.
Te vejo amanhã.”
Morrer, partir! Muitas vezes sentimos ser essa a escolha mais acertada. Pensamos que essa decisão significaria alívio e um final para uma história de vida que, quem sofre, nunca quis ter. É vital, especialmente quando os pensamentos depressivos se tornam agressivamente dominantes, que os lembretes permaneçam: para me lembrar de porque eu preciso ficar. Não importa o quão ridículo ou bobo possam parecer para alguém de fora. Os meus motivos para ficar podem parecer diferentes dos seus, e está tudo bem. Crie seus próprios motivos, mantenha-os próximos e acesse-os quando estiver equivocadamente acreditando que deixar esse mundo é mais atraente do que ficar. Como minha terapeuta me disse uma vez: "O mundo levaria um grande golpe se você não estivesse aqui, porque você é inerentemente digna de viver." O mundo precisa de nós, mesmo que ainda não possamos acreditar. Fique um pouco mais.
Siga sua jornada, aqui.



Se você ou alguém que você conhece está lutando com as questões abordadas neste texto, por favor, procure a ajuda profissional de um psicólogo ou psiquiatra e ligue para o número do CVV: 141.

Texto original: To My Suicidal Self Who Needs a Reminder to Stay. By Leah Beth Carrier. https://themighty.com/2017/09/letter-reminder-to-stay-when-feeling-suicidal-help/
Texto livremente traduzido e adaptado.


sábado, 19 de agosto de 2017

Quais perguntas fazer a alguém que se sinta suicida?


Quando uma pessoa querida, um familiar ou amigo, está pensando em suicídio, às vezes pode ser difícil saber o que fazer ou dizer diante dessa situação.
Talvez um colega de trabalho lhe tenha expressado, de passagem, sentir que ninguém notaria se ele desaparecesse para sempre. Talvez um membro da família tenha manifestado que o melhor seria se ele pudesse dormir e nunca mais acordar. Ou talvez um amigo tenha contado a você sobre um plano concreto para acabar com a própria vida. Seja qual for a situação, esse tipo de conversa é séria e não deve ser ignorada.
Queríamos saber quais perguntas fazer a alguém que se sinta suicida, então pedimos aos membros do nossa comunidade de saúde mental para compartilhar uma pergunta que eles desejaram que lhes tivessem sido feitas quando se sentiram suicidas. É importante lembrar que cada pessoa que experimenta pensamentos suicidas tem sua própria necessidade. As perguntas podem ser um excelente ponto de partida, mas não deve ser a única medida para conseguir uma aproximação. A atitude que deve seguir a estas perguntas é que pode realmente ajudar as pessoas a se sentirem compreendidas e amadas.
Eis o que eles tinham a dizer:
1. “Você quer sair? Muitas vezes, em meus piores momentos, sempre me senti isolada e sozinha. Foi a partir deste ano que as pessoas realmente começaram a perceber e passaram a me convidar quando eu começava a me sentir isolada. "- Kira M.
2. “Posso me deitar aqui com você? Não precisava de mais conversa. Minha cabeça já estava cheia o suficiente. Eu precisava era de um abraço para saber que sim, eu existia para alguém. "- Michelle M.
3. “Qual é a pior coisa que você está pensando ou sentindo agora? Quando me sinto muito mal, vejo-me obrigada a esconder o que sinto das pessoas. Seria um alívio saber que eu posso conversar e falar abertamente sobre isso com alguém. "- Elizabeth M.
4. "Eu queria que alguém me perguntasse o que estava acontecendo ou como eles poderiam ajudar. Eu queria que alguém me ouvisse. No meio em que vivo as pessoas não dão a mínima atenção se o assunto não for conveniente para elas. É triste, tentei falar com alguns amigos sobre suicídio, mas eles empurraram o assunto para debaixo do tapete. "-Ashley M.
5. "Eu queria que eles simplesmente me perguntassem se eu pensava em suicídio. Sempre me fazem pergunta tipo: “Como você está”?" 'Você está bem?' "Algum mau pensamento?" "Você está tendo um dia bom ou ruim?" E tantas outras perguntas que parecem evitar a palavra " suicídio ". Quando essas pessoas evitam dizer a palavra suicídio ou se constrangem em perguntar se estou me sentindo suicida, penso logo que não querem saber como estou realmente me sentindo. "- Makayla F.
6. “Posso segurar sua mão esta noite? Eu acho que é importante poder sentar-se com alguém que é suicida e, não, procurar colocar um band-aid... Apenas sente-se sem julgamento e deixe a pessoa sentir que há alguém de verdade ao seu lado. "- Gyna R.
7. “Como posso ajudar? E se eu não sei o que dizer, porque, realmente, quando me sinto assim eu não sei como ser ajudada, apenas esteja lá. "- Jessi W.
8. “Por quê? Uma pergunta simples que nunca me fizeram de uma maneira sincera. Sem julgamento, sem nenhuma tentativa distorcida de fazer com que meus problemas pareçam menos importantes do que eu sinto que são. Perguntar por que com a verdadeira intenção de entender. Cuidar de mim sem me odiar por meus pensamentos. É o que eu precisaria. O que ainda preciso às vezes. "- Lydia D.
9. “Posso ficar com você? Às vezes, quando eu estou suicida, tudo o que preciso é que alguém esteja ao meu lado, que fisicamente não me deixe sozinha e que eu possa sentir a presença de uma outra pessoa que deseje realmente  que eu permaneça viva. "- Alyse R.
10. “Você está realmente OK? Se alguém tivesse dito isso me olhando dentro dos olhos e estivesse aberto em ouvir tudo o quanto eu gostaria de dizer, teria sentido que alguém se importou de verdade comigo. Ninguém nunca tentou ultrapassar a resposta de sempre: "Sim, estou bem", e eu realmente queria que alguém tivesse. "- Kacey K.
11. “Posso ir / posso ir buscá-la? Eu tenho (um filme / jogo de tabuleiro / jogo de cartas / maquiagem nova / etc e / pipoca / doces / bolo / etc). Seria bom estar com alguém que só queira estar comigo. Não precisa querer me “ajudar” ou “me tirar do fundo do poço”. Apenas esteja lá. Literalmente. Distraia-me. Faça com que me divirta. "- Brianne O.
12. “Você quer ajuda com algumas de suas tarefas? Você pode falar comigo sobre isso? Como você está se sentindo? Você pode me dizer o que está acontecendo para que eu possa entender o que você está passando? Existe alguma coisa que eu possa fazer para apoiá-lo nessa sua luta? Qualquer um destas perguntas seria bem vinda. "- Devin L.
13. “Você quer que eu procure um profissional para você se tratar? Eu nunca falo porque não quero ser um fardo e preocupar as pessoas, mas eu apreciaria se alguém levasse o que sinto a sério e me fizesse essa pergunta. "- Valentina V.
14. “Como posso te ajudar? As pessoas costumam ouvir que eu sou suicida, mas digo que não é nada disso, peço desculpas e desapareço por um tempo até que eu fique "melhor". Eu não precisaria de uma ajuda grandiosa, coisas até bobas - um texto ou uma visita à minha casa quando eu estou ansiosa para ver alguém, que enviem um meme tolo, mas pelo menos me perguntem: “Como eu posso te ajudar”?" Mas eu nunca vou contar a ninguém nada disso. "- Ciara L.
15. "A única coisa que sempre, sempre e sempre preciso ouvir é isso: Eu não vou deixar você. "-  Krystal S.


Se você ou alguém que você conhece está lutando com as questões abordadas neste texto, por favor, procure a ajuda profissional de um psicólogo ou psiquiatra e ligue para o número do CVV: 141.

Texto original: By Juliette Virzi  https://themighty.com/2017/07/questions-to-ask-someone-suicidal-thoughts/ via @TheMightySite.
 Texto livremente traduzido e adaptado.

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Homens, precisamos falar sobre Depressão!


Vamos começar com uma estatística dura e fria.
Quando pensamos nos homens na meia-idade, podemos vê-los como independentes e capazes de cuidar de si mesmos, mas não é essa a realidade. O suicídio é hoje a principal causa de morte em homens com menos de 50 anos na Grã-Bretanha. Pense nisso por um tempo. Não é o câncer ou doença cardíaca ou um acidente de carro a causa mais provável de morte de jovens, ou mesmo de homens de meia-idade, mas o suicídio.
O Escritório Nacional de Estatísticas também nos diz que, enquanto em 1981, 63% dos suicídios eram do sexo masculino, agora esse valor pulou para 78%.
Pense também nisso por um tempo. Há algo acontecendo em ser um homem em 2016 que está levando muito mais homens a tirar sua própria vida. Isso fica mais surpreendente quando você tem em mente que muito mais mulheres que homens são diagnosticadas com depressão.
Como o suicídio geralmente é um sintoma de depressão, isso sugere que os homens não estão procurando ou recebendo a ajuda de que precisam. Como as taxas de suicídio são muito elásticas, variando maciçamente entre as épocas e os países, deveria ser uma urgente e grande preocupação o fato de que tantos homens estejam morrendo sem parar todos os anos. Os homens deveriam, no mínimo, ser encorajados a falar sobre seus problemas.
Mas estamos fazendo isso? Eu realmente não penso que estamos. Pense em como a sociedade impõe como um homem adulto deve se comportar! Pense na frase sempre repetida 'você é forte', usado em qualquer situação quando um homem reclama por sentir-se mal ou preocupado ou com problemas. As sugestões por trás dessa frase são terríveis quando você para e olha. Ele coloca a ideia de masculinidade em algum patamar muito alto, implicando que por ser um homem é necessário ser sempre forte, estóico, capaz de sempre se dar bem e resolver todas as situações.
Conversar sobre um transtorno mental que se tenha é quase impossível, dado o estigma que ainda envolve essas doenças. Ainda há a ideia burra de que a depressão é uma ‘fraqueza’, uma ‘frescura’, ‘falta de vontade’, ‘falta de caráter’, e todas essas bobagens. E para os homens, é duplamente difícil porque não são realmente encorajados, principalmente por outros homens, para falar sobre estar doente.
Estamos no século 21, com todo avanço médico e de pesquisas na área da saúde e ainda temos pessoas por aí que duvidam que a depressão seja mesmo uma doença e que está entre os problemas mais graves de saúde pública no mundo. E também temos a ideia tosca de que o machismo é uma coisa completamente boa para os homens. Não é!
Precisamos compreender de uma vez por todas que o machismo é errado, não só porque limita as mulheres economicamente e socialmente, mas também porque limita os homens emocionalmente. O machismo nos impede de falar sobre nossos problemas, e mata pessoas.
Quando fiquei doente com depressão há 15 anos, meu círculo social diminuiu muito rapidamente. Havia muito poucas pessoas – certamente e não amigos do sexo masculino – com as quais eu senti que podia falar abertamente. Eu tive a sorte de poder conversar sobre o que estava me acontecendo com minha namorada e meus pais, e essa foi uma razão pela qual eu não tirei minha vida como eu queria desesperadamente fazer. Algumas pessoas nem têm isso.
Limitar as possibilidades de expressão emocional por machismo pode levar muitos homens a não reconhecerem que o que eles têm é uma doença. E que a visão de mundo desesperadoramente negativa que passa a ser dominante quando descem ao fundo do vale não é um reflexo da realidade, mas sim de uma doença. Por isso, muitas vezes, os homens encontram outras maneiras de enfrentar, de forma não saudáveis, os seus problemas, lançando mão do uso abusivo do álcool e de outras drogas. (De acordo com o ONS, por exemplo, 67% dos britânicos consumem álcool em níveis "perigosos" e 80% dos dependentes dele são homens).
Muitos copos de cerveja ou uma garrafa de uísque não irão substituir sua desesperança de que as coisas possam ser mudadas, mesmo que você beba até destruir o seu fígado!
Precisamos mudar a forma como pensamos não apenas a respeito das doenças mentais, mas também quanto ao que significa ser um homem, porque na verdade estamos nos impedindo de obter a ajuda de que precisamos.
E a coisa fica ainda mais horrível porque, realmente, a depressão – com os graves pensamentos suicidas dela decorrentes – é uma doença em que falar, falar e falar, sobre o que está acontecendo realmente ajuda a aliviar os sintomas. A depressão é uma doença dos pensamentos tortos e sombrios e se nós envenenamos o ar com ideias de que os homens, por serem homens, deveriam se calar sobre suas doenças, especialmente as invisíveis, então eles acabarão não só em silêncio, mas também se culpando e punindo-se por ficarem doentes, quando, por serem homens, de forma nenhuma poderiam ficar.
Então, vamos tirar os homens da caixa emocional estreita em que se encontram. Vamos falar abertamente sobre o que sentimos, especialmente quando o que sentimos pode nos matar.

Vamos falar!


Se você ou alguém que você conhece está lutando com as questões abordadas neste texto, por favor, procure a ajuda profissional de um psicólogo ou psiquiatra e ligue para o número do CVV: 141.



Texto Original: Men need to open up about depression, not man up and keep quiet. By http://www.telegraph.co.uk/men/active/mens-health/11533147/Men-need-to-open-up-about-depression-not-man-up-and-keep-quiet.html

Texto livremente traduzido e adaptado.


quinta-feira, 15 de junho de 2017

Como estão agora ?: O destino dos que sobreviveram a uma tentativa de suicídio

Kevin Hines

A Golden Gate Bridge é uma ponte localizada no estado da Califórnia, nos Estados Unidos que se notabilizou pela trágica fama de ser um local que muita gente procura para se suicidar. Pessoas que queiram morrer precisam, definitivamente, estar muito mal a ponto de recorrer a Golden Gate Bridge para saltar. 

Mas e se essas pessoas são impedidas de saltar? O que acontece com elas depois?
Você pode pensar que, uma vez libertos pelas autoridades que impediram seu suicídio na ponte, elas ainda viriam a tentar novamente o suicídio. Afinal, essas pessoas estavam decididas a morrer. Seria lógico então pensar que ser impedido de saltar simplesmente atrasou suas mortes.
O que você acha? Se teve tal suposição você está errado. Isso, errado!
Na década de 1970, um pesquisador chamado Richard Seiden resolveu investigar o que aconteceu com 515 pessoas que chegaram à Golden Gate Bridge para morrer nos 35 anos anteriores, mas que foram detidos pelos policiais da Patrulha Rodoviária da Califórnia. Ele publicou os resultados em um artigo intitulado  Where Are They Now?: A Follow-up Study of Suicide Attempters from the Golden Gate Bridge.”
O que o Dr. Seiden encontrou é um testemunho notável, e esperançoso, do fato de que uma crise suicida é frequentemente - muitas vezes - temporária.
Das 515 pessoas cuja tentativa foi interrompida, 35, de fato, vieram a morrer por suicídio. Considerando os relatos que os pesquisadores não incluíram, o Dr. Seiden afirmou que 90% das pessoas que tentaram saltar do Golden Gate Bridge não morreram por suicídio. 
O que outras pesquisas mostram?
Esta pesquisa, embora com 35 anos, ainda é verdadeira. Apesar de uma tentativa de suicídio anterior aumentar drasticamente o risco de suicídio futuro, os estudos demonstram que a maioria das pessoas que sobrevivem a uma tentativa de suicídio não morre por suicídio:
  • Em um estudo da Finlândia, de 224 pessoas que tentaram suicídio e foram atendidas em um centro de saúde, 8% morreram por suicídio dentro de 12 anos.
  • Pesquisadores da Suécia seguiram 34.219 pessoas que foram hospitalizadas após um ato de automutilação intencional. Durante 3 a 9 anos de seguimento, 3,5% morreram por suicídio.
  • Um estudo seguiu 100 pessoas que sobreviveram a uma tentativa de suicídio por overdose. No final do seguimento de 37 anos, 13% morreram por suicídio. (A taxa de mortalidade deste estudo é maior do que outros, quase certamente por causa do longo período de acompanhamento e da natureza séria da tentativa, o que justificou a admissão em um hospital).
  • No geral, uma revisão recente de 177 estudos de pesquisa em todo o mundo descobriu que 4% das pessoas que sobreviveram a um ferimento ou intoxicação intencionalmente provocados se suicidaram em 10 anos.
Por que eles decidiram ficar vivos?
Existem diferentes possíveis razões pelas quais as pessoas que tentam o suicídio, ou fazem tal tentativa, decidem escolher depois se manterem vivas. A razão mais intuitiva é que as crises suicidas são, por sua natureza, temporárias. Na grande maioria das vezes, a crise passa, e passa a vontade de tirar a própria vida.
Além disso, as pessoas que tentam o suicídio podem receber a ajuda de que precisam depois. Amigos e familiares podem se reunir ao seu lado. Terapeutas e médicos podem ajudar a fornecer alívio. Os motivos da pessoa para morrer podem começar a desaparecer.
Outra possibilidade é que o instinto de viver passa a falar mais alto quando alguém se aproxima realmente da morte. Até então, esse instinto pode ter sido obscurecido e quase que anulado pela depressão, estresse, desesperança ou desespero.
O Instinto de Viver
A história de Kevin Hines demonstra com clareza como a vontade de viver pode aparecer quando a vida de alguém está próximo da morte. Em 2000, ele realmente saltou da Golden Gate Bridge. Poucas pessoas sobrevivem a uma tal queda. A água cerca de 200 metros abaixo age da mesma forma que o concreto quando uma pessoa cai sobre ela em alta velocidade.
Embora a depressão grave por que passava o tenha levado saltar da ponte, Kevin Hines afirmou :
"No segundo momento que eu soltei, eu sabia que cometi um grande erro".
Para Kevin Hines, a vontade de viver surgiu no exato momento em que saltou. Ele conseguiu se endireitar nos poucos segundos que demorou para ele bater na água e desta forma evitou bater de cabeça. Depois que ele foi resgatado, ele continuou a viver, e vive ainda, servindo como um ardoroso defensor da prevenção do suicídio a nível nacional.
Lições de Vida
Obviamente, e infelizmente, a vontade de viver não se reafirma em todos os que tentam morrer. Não podemos ignorar que 10% das pessoas que sobrevivem a uma tentativa de suicídio continuam a morrer por suicídio.  E para mais de metade das pessoas que morrem por suicídio, o ato fatal foi mesmo a primeira tentativa de morte.  
A tragédia do suicídio é indiscutível. A sobrevivência dos que fazem uma tentativa de suicídio nem sempre acontece.
No entanto, me dá grande esperança saber que a grande maioria dos sobreviventes de tentativa de suicídio permaneça sendo apenas isso - sobreviventes.  Este é talvez o melhor argumento para prevenir o suicídio. É verdade que o suicídio às vezes desafia mesmo os melhores esforços para combatê-lo . Mas, em geral, a evidência é que evitar o suicídio e a prevenção não é simplesmente um atraso temporário da morte.
A prevenção do suicídio pode salvar vidas. E para a maioria daqueles cujas vidas foram salvas, a vida continua por muitos e muitos anos.





Se você ou alguém que você conhece está lutando com as questões abordadas neste texto, por favor, procure a ajuda profissional de um psicólogo ou psiquiatra e ligue para o número do CVV: 141.



Texto original:  Where Are They Now?: The Fate of Suicide Attempt Survivors. Escrito por   / http://www.speakingofsuicide.com/2013/07/05/suicide-attempt-survivors/




Texto livremente traduzido e adaptado.


quarta-feira, 31 de maio de 2017

Por que luto apaixonadamente pela Prevenção do Suicídio?

"Se a vida de alguém é tão horrível a ponto de querer morrer, por que impedi-lo?"
Muitas vezes me fazem essa pergunta ou alguma variação desta questão. Pois bem, devo já ir dizendo que sou um apaixonado pela prevenção do suicídio. Eu sei que minha posição muitas vezes desencadeia a contrariedade de alguns que pensam que as pessoas deveriam ter o direito de acabar com sua própria vida sem interferência de outros bem-intencionados. Entretanto, em minha opinião, existem muitas razões para impedir alguém de suicídio.
O motivo mais importante para evitar o suicídio é que as crises suicidas, embora terríveis ​​e dolorosas, são quase sempre temporárias. Considere que 90% das pessoas que sobrevivem a uma tentativa de suicídio não morrerão por suicídio. Repito: 90% das pessoas que sobrevivem a uma tentativa de suicídio não virão a morrer por suicídio. Esse número é muito revelador. Mesmo entre as pessoas que desejaram morrer tão fortemente a ponto de tentar acabar com suas vidas, a maioria vai escolher viver.
Enquanto uma pessoa estiver viva, as coisas podem mudar para melhor. As situações mudam. E mesmo que sua situação externa seja imutável, é possível sim descobrir coisas que tornem sua vida digna de ser vivida. Existe sempre a possibilidade de encontrar formas de lidar com essa situação, ou é possível passar a apreciar coisas diferentes na vida. É possível até encontrar um propósito na vida que dê um significado a uma perda ou a um trauma sofrido.
Kevin Hines é um defensor da prevenção do suicídio que, anos atrás, saltou da Ponte Golden Gate, o local em que vem ocorrendo a cada ano a maioria dos suicídios nos Estados Unidos. A morte é quase certa quando se pula da ponte. É sabido que mais de 1.500 pessoas já pularam, e apenas 30 ou mais são conhecidas por terem sobrevivido. Então, quando Kevin pulou da Ponte Golden Gate, ele estava absolutamente decidido a morrer. E, no entanto, mesmo com essa intenção, no momento em que ele pulou da ponte, ele se arrependeu instantaneamente de sua decisão.
Sua experiência é uma das muitas (incluindo minha própria história) que ilustra que o desejo de morrer é fluido. Vem e vai. Vem e vai em graus variados. A grande maioria das pessoas que são salvas do suicídio ficam agradecidas, mais cedo ou mais tarde, por estarem vivas.
Outra razão importante para evitar o suicídio é porque, apesar do que afirmam os defensores do suicídio racional, em quase todos os casos, o suicídio é um ato decididamente irracional. A pesquisa indica consistentemente que 90% das pessoas que morrem por suicídio estavam com uma doença mental diagnosticável e possível de ser tratada no momento da morte. A doença mental distorce o pensamento. O que é ruim pode tornar-se bom e vice-versa. Muitas vezes, mas muitas vezes mesmo, quando a saúde mental de uma pessoa melhora, o desejo de morrer desaparece por completo.
Algumas pessoas contestam as altas estimativas de doenças mentais no suicídio. Mas ainda que presumamos que nem todos os que morrem pelo suicídio tenham uma doença mental, temos que considerar que outras coisas além da doença mental também podem distorcer profundamente o pensamento de alguém, como uso de substâncias, a privação de sono e uma experiência traumática.
Muitas pessoas que abordam essas questões reconhecem que também já consideraram seriamente o suicídio ou fizeram uma tentativa, mas atravessaram essa difícil fase e hoje se juntam, numa comunidade de esperança, para contar sobre isso.





Se você ou alguém que você conhece está lutando com as questões abordadas neste texto, por favor, procure a ajuda profissional de um psicólogo ou psiquiatra.



Texto original:  Why Prevent Suicide? Here Are My Reasons. Written by  Stacey Freedenthal, PhD, LCSW  /  http://www.speakingofsuicide.com/2013/05/19/why-stop-someone-from-suicide/




Texto livremente traduzido e adaptado.



sexta-feira, 19 de maio de 2017

Carta de um psicólogo para uma pessoa suicida



Quando você vem me pedir ajuda, eu quero te ajudar.
E espero que você me deixe.
Eu não posso conhecer seus segredos sem que você me conte.
Espero que você me diga.
Fale pra mim, por favor, sobre seus pensamentos suicidas.

Você pode sentir medo de me dizer
Quando eu pergunto se você está pensando em suicídio.
Vou tentar te ajudar a se sentir seguro:
Eu não vou julgar você.
Não vou te interrogar.
Não vou entrar em pânico.
Eu escutarei suavemente enquanto você conta sua história
Em suas próprias palavras, no seu próprio tempo,
Do seu próprio modo.

O suicídio pode te dizer para não me dizer nada.
O suicídio pode dizer que eu sou seu inimigo.
O suicídio mente.
O suicídio pode dizer que ninguém poderá te ajudar,
Que morrer é a única maneira de acabar com sua dor.
O suicídio pode até dizer que você é uma pessoa inútil
Com defeitos, não merecendo a vida.
Não merecendo amor, ou esperança, ou compaixão.

Por favor, fale comigo.
Eu não posso ajudá-lo a lutar contra um inimigo
Se você não me falar sobre esse inimigo,
O inimigo que está tentando te matar.
Não confie em seus pensamentos suicidas.
Eles não são racionais.
São um sintoma, um sinal, um grito de dentro.
Algo  dentro de você precisa de cura.
Cura, não autoextermínio.

 Diga-me, por favor, o que o suicídio te diz.
Ele diz apenas o que está errado com sua vida?
Apenas o que há de errado com  você?
O suicídio tenta enganar a verdade,
Dizendo apenas as meias verdades que fazem você querer morrer
Escondendo as verdades que fazem você querer viver:
Os fragmentos de esperança.
Os caminhos para a cura.
As possibilidades.

Fale comigo, por favor.
Ou fale com outra pessoa.
Eu sou apenas uma das muitas pessoas que podem te ajudar.
Mas ninguém pode ajudar se você não falar com alguém.
Obrigado.
Um dia você vai agradecer, também.
Por falar.
Por sobreviver.

Se você ou alguém que você conhece está lutando com as questões abordadas neste texto, por favor, procure a ajuda profissional de um psicólogo ou psiquiatra.

Texto original:  Letter from a Therapist to a Suicidal Person,  by   / http://www.speakingofsuicide.com/2014/05/01/letter/



Texto livremente traduzido e adaptado.